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Universidade do Mate (o livro) faz 40 anos

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Em 1983, o professor e historiador Ruy Christovam Wachowicz dedicou um dos seus livros “a todas as gerações da Universidade Federal do Paraná”. A expressão se mostrou uma espécie de profecia. Até hoje, aos 40 anos da sua primeira edição, o livro Universidade do mate: História da UFPR mantém relevância histórica, inclusive quanto aos seus bastidores.

O livro foi resultado de uma pesquisa então inédita sobre jornais de época, aproveitando o fato de que um dos fundadores da Universidade do Paraná, embrião da instituição aberto em 1912, o médico Victor Ferreira do Amaral e Silva, era também dono do jornal Commercio do Paraná, lançado um ano antes.

Foi em uma de suas incursões à Biblioteca Pública do Paraná, um dos seus lugares preferidos, que o professor Ruy, como era conhecido, tomou conhecimento da “invulgar quantidade de notícias referentes à Universidade do Paraná”. Ao mesmo tempo, havia a curiosidade generalizada na comunidade acadêmica sobre o quanto de elitismo marcava os alicerces da universidade.

Assim começou o projeto do livro, centrado em uma metodologia que buscava uma história dos primórdios da UFPR e da luta dos sujeitos por trás da fundação da universidade. Wachowicz procurou garantir rigor científico ao processo, contextualizando as primeiras décadas da universidade a partir de uma hipótese e dentro de um panorama sócio-econômico. O professor registrou a história dos primórdios da universidade até o ano de 1950, quando a instituição foi federalizada. Preferiu parar ali para não adentrar a história dos próprios colegas, por “motivos éticos, cremos que compreensíveis” — Wachowicz ingressou no Departamento de História da UFPR em 1966, aos 27 anos, depois de lecionar História na educação básica.

A primeira edição da obra foi da Associação dos Professores da UFPR (APUFPR) com o apoio de uma corretora de seguros, um arranjo que rendeu liberdade para que o livro saísse fidedigno em relação a certos episódios e figuras. As reedições foram ficadas a cargo da Editora da UFPR, sendo que a mais atual delas, de 2022, está disponível para download gratuito. O livro também é um dos temas do concurso de murais que a instituição promove até julho nos prédios do Centro Politécnico, em Curitiba, como parte da programação cultural da 75ª Reunião Anual da SBPC. Trata-se de um registro simbólico para a biografia do autor, já conhecido por longas incursões na história do Paraná e da migração polonesa no Brasil, mas que lecionou História Medieval na UFPR.

Segundo a professora Lílian Anna Wachowicz, de 84 anos, historiadora da educação que foi também mulher e colega do professor Ruy na UFPR, o autor não precisou defender o conteúdo de Universidade do Mate, como ocorreu com outros dos seus 12 livros. Wachowicz foi responsável, por exemplo, por documentar a construção da usina hidrelétrica Itaipu, nos anos 1970, e não chegou a ser convidado para o lançamento do livro Obrageiros, mensus e colonos: história do oeste paranaense por se negar a cortar trechos sobre a destruição do Salto das Setes Quedas para a construção da barragem de Itaipu.

“Já a associação [ADUFPR] tinha outra orientação ideológica. O Ruy sempre foi sindicalizado. A primeira reunião para a greve de 1968 ocorreu aqui em casa”, conta Lílian Anna, referindo-se à casa onde mora até hoje em Curitiba, 23 anos depois do falecimento do pesquisador. Nessa mesma residência, quando ambos estavam em atividade, era preciso reservar um espaço considerável para abrigar a papelada dos dois historiadores, que pesquisavam em pilhas e pilhas de fotocópias de jornais.

A expressão “universidade do mate” revela a tese do livro, a de que a UFPR foi um empreendimento educacional tornado realidade por uma elite regional criada pelo negócio da erva-mate, no século XIX. Essa nova burguesia, “virada de costas” para o centro do Brasil porque seus principais mercados estavam ao Sul, se ressentia de não contar com um centro de formação de profissionais liberais e intelectuais no Paraná. Rocha Pombo, uma das vozes pela ideia da universidade na década de 1910, se referia à Curitiba da época como “analfabetolândia”. Amaral e Silva fez um censo de médicos e engenheiros nascidos no Paraná e, em cada profissão, o número não chegava aos dedos da mão.

Com esse motor, a universidade se desenvolveu como projeto e depois como instituição, ainda que a duras penas, uma verdadeira “saga”, já que essa burguesia contou com pouco apoio do governo federal e até muito do governo estadual, mas com ingerência como contrapartida. Aliás, devido à chamada Lei Rivadávia, de 1911, que abria o ensino superior ao livre mercado em território brasileiro, a Universidade do Paraná nasceu e conviveu com um concorrente difícil: empresas como a Universidade Escola Internacional, com filial no Rio de Janeiro, que vendia diploma de bacharel ou doutor a 60 mil-réis. “Vaidade rotunda dos cérebros caldaças [algo como “ralé]”, criticou um articulista no Commercio do Paraná.

A historiadora Roseli Boschilia, que foi professora na UFPR e aluna do professor Ruy, avalia que Universidade do Mate inovou ao procurar não dissociar a história local de um contexto mais amplo. “Trata-se de um estudo relevante para entender a constituição de uma instituição de ensino superior no Paraná, no contexto do início do século XX”, afirma. Outro aspecto da obra que chama a atenção da pesquisadora é que, mesmo tendo como fontes documentos — o que não era o usual de Wachowicz, que se destacou por colher histórias orais —, deixa entrever a voz dos diferentes indivíduos retratados.

“Trata-se de um estudo relevante para entender a constituição de uma instituição de ensino superior no Paraná, no contexto do início do século XX”. Para Roseli, está claro que o projeto da UFPR foi por interesse de uma elite, uma vez que, no Paraná, “apenas a elite ligada à economia do mate tinha acesso à educação”. Mas também deixa escrito que esse processo não foi tão fácil quanto poderia ser. “Nossa instituição é fruto do esforço de grupos locais e não uma concessão do governo [da época]”, diz.

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